A primeira entrevista de Marcelo Adnet: Teatro Carioca

Por Bruno Maia, maio de 2006

Minutos antes de entrevistar a Ordinária Produções, a seguinte conversa se deu entre o segurança do Teatro Cândido Mendes e eu: - O senhor assiste a muito teatro trabalhando aqui? – Assisto, assisto sim… – E o que o senhor acha do… – Antes da peça estrear eu já sei se é boa ou se não é, se vai fazer sucesso ou não… – É mesmo? Como que o senhor sabe? – Ah, é fácil, né… Eu vou lá e assisto, se eu rir, é boa, se eu não rir, ninguém vai rir, não vai fazer sucesso…. – Ah, bacana…

A primeira entrevista de Marcelo Adnet: Teatro Carioca   destaque

O texto desta parte final da série sobre o novo teatro carioca é, em muito, resultado de uma conversa de bar. Sem pré-produção, entrevista do tipo pá-pum no Baixo Gávea, realizada cerca de uma hora e meia depois de mais uma sessão lotada da peça Z.É – Zenas Emprovisadas, no tradicional Teatro João Caetano (1200 lugares), no centro do Rio de Janeiro. Registro feito apenas pelo duo iPod+iTalk e pela memória calibrada.

Marcelo Adnet: O talento de quem não aprendeu a fazer

Apresentação (por Bruno Maia): Marcelo Adnet é amigo velho. De colégio primeiro, de faculdade depois. Hoje em dia, é um dos atores mais promissores do humor no país. Desde sempre, dono de um cinismo seco e escroto, no melhor sentido que o adjetivo possa tomar, de repente estava arrebentando em uma peça de teatro, sendo que eu nunca soubera que ele fazia teatro. Apesar dessa estranheza, o mais estranho era pensar como aquilo poderia ser estranho. Conhecendo Adnet, o mais normal era ter imaginado que o seu caminho natural seria os palcos. Mas não imaginei. A fisionomia ordinária – ele carrega no rosto um tipo de brasileiro comum – está em sintonia com um arquétipo contemporâneo que encarna com facilidade quando está em cena.

Apresentação (pelo próprio): Vou me apresentar mais ou menos sério. Sou Marcelo Adnet, cidadão do Humaitá, onde eu moro há 24 anos, os 24 anos de vida que eu tenho. Na infância eu era bem maluco, bem anti-social, não brincava, não conheço desenho animado nenhum, não conheço história infantil, não conheço porra nenhuma…Tive uma infância esquisita e tal… não pegava ninguém, era um adolescente espinhento, traumatizado… Daí, fui estudar no Santo Agostinho, senti uma diferença daquelas pessoas pra mim. Eu vindo do Humaitá, no Santo Agostinho, era quase alguém vindo da Baixada, era mais ou menos assim, pessoal todo do Leblon, Ipanema… E aí lá, eu tive contato grande com a burguesia, com a nobreza, entendeu?! Aprendi os hábitos da galera, que era ir para boates caras, jogar boliche no Barra Shopping… minha vida deu uma mudada. E aí, a educação rígida me fez querer sair da educação rígida, sacou?! Naquele colégio ali, que se ficava de 7 da manhã até 5 da tarde, no terceiro ano, era uma rotina enlouquecedora. Então, fui pra PUC. Lá, finalmente, eu comecei a me achar. Porque na PUC, a melhor coisa que me aconteceu não foi nem o curso de jornalismo, eu não sabia o que fazer, não tinha idéia sobre o que fazer, pensei: ‘Comunicação!’, porque é um curso mais amplo, onde você pega alguma coisa… E na PUC, eu não sabia o que fazer e as aulas de Comunicação são qualquer-nota mesmo, sobre porra nenhuma, e aí o que de bom aconteceu foi fazer vários amigos muito diferentes: a galera careta – como tinha no Santo Agostinho –, a galera que dava um dois na casinha, a galera do forrózinho, a galera do reggae, a galera que ia pra praia, a galera que viajava junto… E muitas pessoas que nem eu, da minha idade, fazendo coisas diferentes da vida. Um ia para um intercâmbio na Europa – porra, coisa que eu nunca pensei em fazer –, o outro tinha um negócio – porra, como assim um cara da minha idade tinha um negócio? –, o outro não faz porra nenhuma – que nem eu – me conforta. Esse lance ir criando vários amigos foi me ajudando a me achar e desde então, eu sou feliz.

Mas lá na PUC, eu fiz um estágio de jornalismo com assessoria de imprensa e foi uma merda, chato pra caralho, aí, o Fernando Caruso, esse rapaz de olhos saltados, que namorou minha prima, também fazia PUC, Comunicação – só que ele fazia publicidade. A gente se encontrava na PUC, se grudava e ficava falando merda sem parar. SEM PARAR. Daí um dia, ele virou pra mim e perguntou se eu não faria uma peça de improviso com ele. E eu nunca fui ator, porra nenhuma, só conhecia as pessoas ali do Tablado, via ele… Eu disse sim, fomos ensaiar, conheci o grupo, a química bateu. Eu ainda trouxe um elemento musical porque a minha família – meu pai e meu irmão são seis, dos quais cinco são músicos – é dessa área… E a gente se encontrou em agosto de 2003, montou o Z.É, que é a minha base de carreira em que me encontrei. Por quê? Porque é divertido, porque é flexível, porque você trabalha pouco fixo, não tem horário pra porra nenhuma, não tem colega de trabalho fixo além da galera da peça, então é uma profissão que me deixa feliz por ser uma profissão de autonomia. E a minha história pára aqui, depois de cinco minutos falando pra caralho…

Falou mesmo. O impacto que o Z.É causou no teatro carioca foi muito grande. Com uma estrutura ínfima, eles não só venceram o Prêmio Shell, na categoria especial em 2004, como estiveram à frente de um movimento forte de peças de humor. Provavelmente o termo movimento sugira algum tipo de organização e/ou proposta estética semelhante que, na verdade, não há. Os grupos e montagens têm uma grande independência entre si. Fato é que, no atual teatro carioca, fazer comédia é quase que condição obrigatória para alcançar-se êxito comercial. Para os cariocas, teatro virou terapia do riso. Talvez, uma conseqüência do humor que sempre marcou os habitantes da cidade maravilhosa, talvez uma fuga para a total falta de razões reais para se rir na cidade maravilhosa, talvez as duas coisas juntas e talvez não.

A trajetória peculiar de Adnet, que, como já disse, nunca estudou teatro, faz com que o ator tenho uma visão particular sobre os caminhos para a renovação estética e de público:

Não sei se é porque eu vim de fora, mas eu acho que o teatro precisa de pessoas de fora, de público leigo. Porque quem faz teatro, na maioria das vezes, faz a peça para a crítica, pro meio, e não para o público que vai ver. Então as pessoas que vêm de fora, que fazem parte do mundo real, fazem a comunicação acontecer. O teatro tem um problema de comunicação e as peças, muitas vezes, são uma merda mesmo, um saco.

Sobre o excesso de comédias, Adnet tem uma visão própria.

Houve uma necessidade de se dar uma nova cara para a comédia. Durante um tempo, existia uma espécie de pornô-chanchada, com peças como Trair e coçar, é só começar, Por falta de roupa nova, passei o ferro na velha, que ficaram muito tempo em cartaz, mas que se esgotaram. Surgiu a necessidade de se fazer uma coisa nova, mais sofisticada para se reaproximar o público. No caso do Z. É, a gente tem influência de teatro-esporte. Não é uma peça, é um jogo onde a platéia vê tudo que está acontecendo, de onde surgiu a piada, acompanha o raciocínio, a construção, e não só o produto final. Mas há outros formatos de comédia no teatro carioca e não há uma linha comum entre isso tudo. Cada grupo, cada peça, segue uma influência, segue um formato diferente. Tem os stand-up comedies, que são mais baseados num humor norte-americano, o nosso é mais influenciado por coisas inglesas, tem uma comédia mais tradicional, de tipos…

O fato de ter virado ator não alterou muito a visão que Adnet traz do teatro. Ele, que raríssimas vezes ia assistir a peças, hoje em dia continua não indo muito.

Vou um pouco mais, umas duas, três vezes no mês, normalmente como convidado. Pagando ainda é bem difícil, conta, sem esconder o riso e o quê de cinismo.

Não ter formação teórica, faz com que Adnet fuja de alguns caminhos e vícios.

Eu vou fazer uma cena com a Arlete Salles. Foda-se. Eu não vou entrar ‘respeitando’ porque eu vou ficar tímido e vai ser ruim pra cena. Tenho que tratar as pessoas de igual pra igual. Eu estou aprendendo ao fazer. Outra coisa é decorar texto, que eu achava que devia ser muito difícil… isso é ridículo, qualquer um decora. O mais difícil é fazer as palavras que você está lendo saírem com naturalidade. Contruir personagem? Eu não construo. A maioria das pessoas faz assim. Eu, por incompetência ou por inexperiência, não faço. O que eu faço é dar uma lida, à noite, e imaginar as cenas. Eu até tento a construção, mas eu não tento ir conviver com o que seria o ambiente natural do meu personagem para aprender como é… A minha formação é a de resolver as coisas na hora, no fogo, como um processo bem teatral mesmo.

O humor sacana é a grande marca de Adnet. Sem constrangimentos, ele demonstra saber que isso é uma faca de dois gumes e que tanto foi responsável pelo espaço que o trabalho dele conseguiu até aqui, quanto pode ser um limitador mais à frente.

Todo mundo tem uma característica marcante e se cair um personagem com essas características na minha mão, ótimo, eu vou fazer bem. Se vier outra coisa, é o que o ator chama de desafio e eu estou aí pra isso. Tem um filme que eu fiz agora, onde eu interpreto um garoto bonzinho e foi foda. Se eu quisesse entrar em crise, eu entrava, mas eu preferi não entrar. Preferi falar: ‘foda-se, estou trabalhando’. Isso pode limitar a carreira, sim, mas acontece com todo mundo. Em principio, eu sou um humorista, mas eu também gosto de ser ator.

O trash-televisivo é outra referência fortíssima e marca demais a personalidade artística de Adnet.

Eu não me inspiro em nenhum programa de televisão, porque eu não gosto de nenhum deles, eu acho. Mas o humor que eu consumo é esse. É nele que eu paro a televisão, no que eu acho ridículo, no que eu acho uma merda. Eu prefiro ver um programa que é muito escroto pra falar ‘caralho, que merda…’ do que um negócio maneiro. Eu curto mais depreciar do que apreciar.

Correr atrás da base acadêmica, que nunca teve, não é uma prioridade para ele, apesar de admitir que faria um curso de dramaturgia.

Eu não sei o que o Stanislavski escreveu, porra nenhuma do Brecht, eu não me atraio por isso. Eu gosto mais do vamo-ver. Mas isso é um pouco de petulância e eu sei que, em algum momento, pode se revelar e eu me fuder. Só que eu acho que a gente só aprende mesmo tomando porrada. Acredito que só vá correr atrás disso quando me for exigido. Até porque essa é uma carreira em que eu estou pela minha felicidade. Não me dá prazer estudar”. Se o prazer é um norte, uma pergunta necessária é como se dá a avaliação sobre os convites que aparecem. Além das peças, Adnet já fez aparições em programas como A Diarista, A Turma do Didi, Sob Nova Direção, além dos três filmes que entram em cartaz no segundo semestre e duas grandes propagandas de empresas de igual porte. “Primeiro, é a natureza do projeto. Por exemplo, teatro tem um comprometimento muito grande, vou ter que ficar mais de um ano ali, com as mesmas pessoas, vou acabar brigando com um, etc. Na televisão, eu pego um ônibus, vou pra Globo e volto pra casa! Outra coisa é, lógico, dinheiro. Se vão te pagar muito bem, como é na publicidade ou no teatro para empresas, aquilo não vai te projetar, nem te dar reconhecimento. É só um cachê. Outro critério que uso é o artístico. Eu estou em três filmes agora e a opção de fazer cinema é para realizar um sonho. Se eu tiver netos, eu vou poder pegar na locadora e explicar cada cena para eles. Cinema tem essa magia.

No Z. É, o único quadro solo é o “Coletânea de CD”, comandado por Adnet, que improvisa letras sobre temas propostos pela platéia imitando famosos artistas da música brasileira.

Isso surgiu, em parte, da formação musical da minha família. Graças a ela, eu tenho uma intuição musical, apesar de não tocar nada. Além disso, eu sempre gostei de imitar as pessoas”.

O quadro foi inspirado no programa americano Whose line is it anyway?, do canal Warner, de onde o grupo tirou alguns dos jogos que compõe a terceira parte do espetáculo.

A minha sátira aos músicos é baseada nos vícios de cada um, seja na temática ou na imitação. O Cazuza, por exemplo, – [nota do editor: Adnet começa a falar imitando Cazuza] – fala de coisas pooodres, critica a burguesiiia, enche a cara no baaar e picha o muuuro… Ele é assim. O Renato Russo é um cara que faz versinhos e conta coisinhas – [n.e: Adnet passa a imitar Renato Russo] – e eu estou aqui/ com vocês tomando chope/ e a cada gole/ me sobe à cabeça/ eu estou ficando doidãão… Mas é tudo muito intuitivo.

O sucesso de Z.É já faz com que a peça esteja em cartaz há quase três anos, na nona temporada, com esquemas de pausa e retorno.

O plano é não acabar nunca. Esse é o nosso projeto maior e a gente tenta conciliar as outras coisas com as pausas no Z.É. Mas a idéia é ir levando ele sempre adiante.

Ao avaliar o novo teatro carioca, Adnet acaba caminhando para falar, novamente, da comédia, e ressalta que até pouco tempo atrás havia um comprometimento maior com um suposto papel político do artista.

Artista é o caralho. Eu faço pra me divertir, estou cagando. Não há uma unidade política, é uma junção de pequenas ideologias baseadas simplesmente na atualidade e que pode, até por isso, acabar sendo político. Acho que isso está presente nessa nova geração”. Forçando a barra, provoco Adnet para saber que tipo de relação há entre essa galerinha ligada à comédia, da qual ele faz parte, e os outros setores do novo teatro carioca. Que tipo de diálogo se dá? As respostas ficam no meio do caminho, entre uma intenção e uma falta de realidade. “Quem veste bandeira, camisa de galera, se dá mal. Dentro de grupinhos, você se limita, acaba sendo patrulhado. O legal é dialogar e circular. A gente do Z.É quer saber do que está acontecendo, mas nós mais depreciamos do que… gostamos mais de falar mal dos outros do que de falar bem… é… se bem que isso acaba nos tornando um grupinho também. … … e também não há uma estética ideal. Cada um está na sua fazendo seu trabalho, você lá e eu cá. Me interessa como espectador. Como profissional, me interessa na medida que eu quero ver o que o outro está fazendo, quais os recursos que ele está usando. Mas ao mesmo tempo, se rolar a possibilidade de trabalhar junto, me interessaria.

A distância entre os artistas que compõe essa nova cena é evidente. Ao mesmo tempo, há um constrangimento entre todos que não permite ninguém admitir isso. Sei, sei que cada um dos personagens vai levantar a voz e enumerar vários outros artistas com os quais se relaciona, mas na verdade, são grandes aglomerados geracionais e de interesses, onde o intercâmbio entre propostas diferentes parece pequeno. Isso não é em si algo ruim. A arte retrata a sociedade na qual ela está inserida e estes são tempos individualistas. O caminhar é cada vez mais próprio e influenciado por referências diversas. O diálogo não é tão grande e o resultado é mais plural. As semelhanças pela estética não acontecem. A dialética também não. Mas a mobilização é maior. A articulação até existe, mas é pequena. Talvez seja desnecessária e até melhor que não exista. O novo teatro carioca, assim como a cultura mundial em maio 2006, é composta por pequenos fragmentos desconexos, em que a informação é excessiva, despolarizada e mais democrática. E isso é só uma circunstância.

Fonte: Overmundo

Z.É. estreia sua 21ª temporada

Z.É. estreia sua 21ª temporada   agenda

O espetáculo Z.É. (Zenas Emprovisadas) reestreia, em sua 21ª temporada, no dia 3 de abril, às 21h, no Oi Casa Grande. Mais de 130 mil pessoas já assistiram à maratona de improvisação dos atores Fernando Caruso, Gregório Duvivier, Marcelo Adnet e Rafael Queiroga. A estreia de Z.É. (Zenas Emprovisadas) aconteceu em 2003, em um pequeno espaço no Rio de Janeiro e tornou-se sucesso de bilheteria, com sessões lotadas até hoje.

Z.É. se renova a cada apresentação com a participação de um ator e um diretor convidados e do público, que sugere cenas que serão interpretadas na hora. A maratona de improvisação tem tido impacto inédito no teatro brasileiro, criando um espetáculo único, diferente a cada apresentação. Os atores e diretores convidados da nova temporada são, respectivamente, Eduardo Sterblicht e Eduardo Andrade; George Sauma e Carlos Thiré; Raul Gazzola e Claudio Torres Gonzaga; Paulo Gustavo e Fernando Do Val; Marcio Ballas e Gui Tomé; Leandro Hassum e Marco Gonçalves; Carol Castro e Alexandre Régis; Miguel Thiré e Duda Ribeiro e, por fim, Marcius Melhem e Claudio Amado.

Com uma hora de duração, o espetáculo é dividido em três blocos: Um esquete de humor (diferente a cada apresentação) – com elenco; Uma aula ao vivo de teatro (diferente a cada apresentação) – o diretor convidado prepara uma aula surpresa e propõe exercícios de improvisação aos atores, comentando objetivos e resultados para a platéia; E jogos de improvisação fixos – o público sugere frases e inventa situações que serão vividas pelos atores, com coordenação do diretor convidado. Os jogos de improvisação são os mesmos, contudo com sugestões e resultados completamente diferentes. Tudo ao vivo e a cores, feito na hora.

SERVIÇO:

Z.É. (Zenas Emprovisadas)

Dias 03, 10, 17, 24 de abril e 01, 08, 15, 22 e 29 de maio

Horário: 21h

Local: Oi Casa Grande

Endereço: Rua Afrânio de Melo Franco, 290, Leblon

Ingressos: de R$30,00 a R$60,00

Fonte: Jornal do Brasil